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Carlos Drumond


“Que lembrança darei ao país que me deu
tudo que lembro e sei, tudo quanto senti?
Na noite do sem-fim, breve o tempo esqueceu
minha incerta medalha, e a meu nome se ri.
E mereço esperar mais do que os outros, eu?
Tu não me enganas, mundo, e não te engano a ti.
Esses monstros atuais, não os cativa Orfeu,
a vagar, taciturno, entre o talvez e o se.
Não deixarei de mim nenhum canto radioso,
uma voz matinal palpitando na bruma
e que arranque de alguém seu mais secreto espinho.
De tudo quanto foi meu passo espinhoso
na vida, restará, pois o resto se esfuma,
uma pedra que havia no meio do caminho.”

Para Sempre


Quando tinha 11 anos, escolhi esse poema para falar a minha mãe.
Nunca cheguei a declarar a ela. Ela ja  tinha falecido meses antes.
E o poeta, expressava exatamente o que sentia naquele momento.
Foram apenas 11 anos juntas. Hoje, depois de 30 anos, ainda esta na minha memória cada verso desse poema  e cada momento lindo que estive com ela. 
Sua alegria em nos apresentar para suas amigas, em comer gelatina  da casca do abacaxi, (ela ja reciclava naquele tempo), de seus pes inchados depois do trabalho duro, de seus conselhos para nos ,
de sua alegria quando podia comprar yakult e chocolate prestigio ( produtos de luxo-naquela ocasião).
Do primeiro Conga que nos deu para a aula de educação fisica, das roupinhas que costurava com o tecido mas 'fulero" para nos, das festas do dia da criança que nos levava so para que ganhássemos uma bonequinha de plástico, do seu carinho com o Duque  nosso cachorro, mesmo quando ele destruía as havaianas surradas dela, do frango assado e macarrão quase todo domingo,da dificuldade em ler (era analfabeta) e da insistência que nos falava da importância de estudar, dos sonhos que juntos sonhamos de termos uma casa própria, do cha de camomila que nos dava que tirava la do nosso quintal, e das margaridas que plantava em um vaso de barro e quando com flores, enfeitava nossa mesa, do perfume de alfazema que a ela lhe encantava usar e não da para não esquecer das chineladas no bumbum, quando minha irmã e eu aprontávamos alguma coisa. Bons tempos. Boas Memórias de uma sempre mãe.
Se você tem sua mãe pertinho:


... DESFRUTE, AME, CONSIDERE, RESPEITE e TODOS OS DIAS DE SUA VIDA AGRADEÇA A DEUS POR ESSE SER  ESPECIAL.


Por que Deus permite

que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.

Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
- mistério profundo -
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino

feito grão de milho.

http://letras.terra.com.br/carlos-drummond-de-andrade/460829/





MEMÓRIA


Amar o perdido
deixa confundido
este coração.







Nada pode o ouvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

 As coisas tangíveis

tornam-se insensíveis
à palma da mão.


Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão.
 (by Carlos Drumond de Andrade)
 

Truth

The door of truth was open,
but only let pass
half of a person each time.
Thus, it was impossible to reach the whole truth,
for the half of a person who passed by
brought only the profile of half truth
and their own second half.
Carrying half profiles when leaving,
and the half profiles, did not match the truth.
They broke the door.
They knocked down the door.
Arrived at the bright place
where the truth sparkled its fires.
It was divided in halves,
two different parts.
There was a question, which one
was the prettiest.
None of the two was really beautiful
and it was necessary to choose.
And choices were made according their whims,
their illusions,
their myopia.

by Carlos Drumond